ARQUIVO

Alvará de
D.Maria I,
a Louca, 
sobre a 
manufatura
no Brasil

Mas afinal,
porque
enloqueceu
D.Maria?

Lei de Terras
de 1850

Manifesto Republicano

D. Pedro I
despede-se 
dos
paulistas

Abertura dos
Portos

Proclamação
da República
1o Decreto

Instauração do
Estado Novo

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 
 


Documentos Históricos,
  Direto da Fonte
       Os primeiros  documentos que descrevem as terras do Brasil foram escritos ou por portugueses que faziam parte das mssões oficiais da Coroa, ou por navegadores de outras nacionalidades, que também tentaram obter sua parte no novo continente.
Entre estes, destaca-se o francês Jean de Lery, que publicou um volume chamado Viagem a Terra do Brasil em 1578, com descrições interessantes ao leitor europeu. É importante analisar o tipo de preocupação que o narrador possui, pois revela o universo de discussões no qual estava iserido.
Seguem-se trechos das anotações de Lery.
Do Descobrimento e a Primeira Vista que tivemos da India Ocidental
“Tivemos desde então vento de oeste que nos foi propício e permaneceu tão constante que a 26 de fevereiro de 1557, pelas oito horas da manhã, avistamos a índia Ocidental ou terra do Brasil, quarta parte do mundo, desconhecida dos antigos e também chamada América, do nome daquele que em 1497 primeiro a descobriu. Não é preciso dizer que muito nos alegramos e rendemos graças a Deus por estarmos tão perto do lugar que demandávamos.  Com efeito há cerca as nuvens, velejamos para a terra e no mesmo dia, com nosso almirante à frente fomos ancorar a meia légua de um lugar montanhoso chamado Huuassú  pelos selvagens. Botamos nágua o escaler e depois de ter de quatro meses já não víamos porto e flutuávamos no mar não raro com a idéia de que nos encontrávamos num exílio sem solução.  Por isso logo que verificamos ser o continente que víamos, pois muitas vezes nos enganaram disparado alguns tiros de peça para avisar os habitantes, conforme o costume de quem chega a esse país, vimos reunirem-se na praia homens e mulheres em grande número.  Nenhum de nossos marinheiros, já viajados, reconheceu bem o sítio; entretanto os selvagens eram da nação dos Margaid, aliada dos portugueses e por conseqüência tão inimiga dos franceses que se nos apanhassem em condições favoráveis, não só não nos teriam pago resgate algum mas ainda nos teriam trucidado e devorado.  E logo pudemos admirar as florestas, árvores e ervas desse país que, mesmo em fevereiro, mês em que o gelo oculta ainda no seio da terra todas essas coisas em quase toda a Europa, são tão verdes quanto na França em maio e junho. E isso acontece durante todo o ano nessa terra do Brasil”. 
 

Sobre árvores, frutas e animais que observou no Brasil

“Eis tudo o que pude observar acerca das árvores, plantas e frutas do Brasil durante um ano quase de estada.  Não existem na América quadrúpedes, aves, peixes ou outros animais completamente idênticos aos da Europa; não vi tampouco árvores, ervas ou frutas que não divergissem das nossas, à exceção da beldroega, do manjericão e do feto que vive em vários lugares, como pude observar nas excursões que fiz pelas matas e campos do país.  Por isso, quando a imagem desse novo mundo, que Deus me permitiu ver, se apresenta a meus olhos, quando revejo assim a bondade do ar, a abundância de animais, a variedade de aves, a formosura das árvores e das plantas, a excelência das frutas e em geral as riquezas que embelezam essa terra do Brasil, logo me acode a exclamação do profeta no salmo 104:

Ó seigneur Dieu, que tes oeuvres divers
 Sont merveilleux par le monde univers:
Ó que tu as tout fait par grande sagesse!
 Bref, la terre est pleine de ta largesse.

Felizes seriam os povos dessa terra se conhecessem o Criador de todas essas coisas. Como porém isso não acontece, vou tratar das matérias que nos provarão quão longe estão eles ainda disso”.(pp181)
 

Canibalismo

  "O selvagem encarregado da execução levanta então o tacape com ambas as mãos e desfecha tal pancada na cabeça do pobre prisioneiro que ele cai redondamente morto sem sequer mover braço ou perna.  E dir-se-ia um magarefe abatendo um boi. Em verdade muitas vezes as vítimas estrebucham no chão, mas isso por causa do sangue e dos nervos que se contraem.  O executor costuma bater com tal destreza na testa ou na nuca que não se faz necessário repetir o golpe e nem a vítima perde muito sangue.(...)
 E então, incrível crueldade, assim como os nossos caçadores dores jogam a carniça aos cães para torná-los mais ferozes, esses selvagens pegam os filhos uns após outros e lhes esfregam o corpo, os braços, e as pernas com o sangue inimigo a fim de torná-los mais valentes.
Depois da chegada dos cristãos a esse país, principiaram os selvagens a cortar e retalhar o corpo dos prisioneiros, animais e outras presas com facas e ferramentas dadas pelos estrangeiros, o que faziam antes com pedras aguçadas como me foi dito por um ancião.
Todas as partes do corpo, inclusive as tripas depois de bem lavadas, são colocadas no moquém, em torno do qual as mulheres, principalmente as gulosas velhas, se reúnem para recolher a gordura que escorre pelas varas dessas grandes e altas grelhas de madeira; e exortando os homens a procederem de modo que elas tenham sempre tais petiscos, lambem os dedos e dizem: iguatú, o que quer dizer "está muito bom".
Eis como os selvagens moqueiam a carne dos prisioneiros de guerra, processo de assar que nos é desconhecido.  Quanto à forma do moquém, lembro aos leitores que já a expliquei no capítulo X. Limitar-me-ei a refutar o erro daqueles que, como se pode ver de seus mapas universais  não somente nos representaram os selvagens do Brasil assando carne humana em espetos como fazemos com a de carneiro e outras, mas ainda no-los pintaram a cortá-la sobre bancas, com grandes cutelos, como entre nós os carniceiros fazem com a carne de vaca.  Em verdade tais fantasias são tão verdadeiras quanto a história que conta Rabelais a respeito de Panurge, o qual teria escapulido do espeto lardeado e semicozido.  Quem tais coisas escreveu dos selvagens do Brasil era pessoa ignorante do assunto que tratava.  Tanto os brasileiros desconheciam o nosso modo de assar que certo dia ao nos verem em uma aldeia assando aves no espeto zombaram de nós e se recusaram a acreditar que uma ave assim continuamente volteada viesse a cozer, só o admitindo afinal pela comprovação do fato”.

Sentimento Religioso
"(...)Narro isso tudo a fim de que saibam os endiabrados ateus de que nossa terra anda cheia e, como os tupinambás, embora de um modo muito mais bestial, procuram fazer crer que Deus não existe, que nos selvagens encontraram pelo menos a prova da existência do diabo nos seus tormentos ainda neste mundo. E se replicarem, como o fazem alguns, que o diabo não passa dos sentimentos maus dos homens e portanto é absurdo persuadirem se os selvagens de coisas fantásticas, responderei que os americanos são realmente atormentados por espíritos malignos, pois nunca seria possível que paixões humanas, por mais violentas que fossem pudessem afligi-los a tal ponto, aliás, se não fosse pregar no deserto poderia citar aqui o que diz o Evangelho, dos endemoninhados que foram curados pelo filho de Deus. 
  A esses ateus que negam todos os princípios e por isso mesmo são indignos de ouvir falar nas Santas Escrituras apontarei os nossos pobres brasileiros que, a pesar de sua cegueira, admitem não só existir no homem um espírito que não morre com o corpo mas ainda a felicidade ou a desgraça no outro mundo. 
(...) Voltemos porém ao assunto da religião entre os selvagens da América.  Verificando que quando ouvem o trovão são levados por uma força irresistivel a temê-lo, podemos deduzir que não só se verifica assim a verdade do axioma de Cícero de que nenhum povo existe sem alguma noção de divindade mas ainda que não há desculpa para aqueles que não querem conhecer o Todo Poderoso.  Quando o apóstolo disse que Deus permitiu aos gentios seguirem o caminho que bem entendessem, a todos beneficiando entretanto com a chuva do céu e a fertilidade das estações, observou que os homens só não conhecem o Criador em virtude de sua própria malícia. Aliás o que é invisível em Deus encontra-se visível na criação do mundo.
 Embora os nossos americanos não o confessem francamente, estão na verdade convencidos da existência de alguma divindade; portanto, não podendo alegar ignorância não estarão isentos de pecados. Além do que já disse acerca da imortalidade da alma, em que acreditam, do trovão a que temem e dos espíritos malignos que os atormentam, mostrarei como essa semente de religião (se é que as práticas dos selvagens possam merecer tal nome) brota e não se extingue neles, não obstante as trevas em que vivem.
Os selvagens admitem certos falsos profetas chamados caraíba  (pajé)  que andam de aldeia em aldeia como os tiradores de ladainhas e fazem crer não somente que se comunicam com os espíritos e assim dão força a quem lhes apraz, para vencer e suplantar os inimigos na guerra, mas ainda persuadem terem a virtude de fazer com que cresçam e engrossem as raízes e frutos da terra do Brasil”.

 




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22 de dezembro de 1999