ARQUIVO 

Fotografia e Cidade:São Paulo na Década de 1930  

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
  
Di Cavalcanti, uma história pré-mulatas
   
Quem melhor representou nas artes plásticas o povo brasileiro e a sensualidade da nação, segundo o senso comum? Di Cavalcanti é a resposta rápida, e talvez estas sejam as poucas informações que temos sobre este nome consagrado da arte brasileira. A história de seu envolvimento com as artes gráficas e posterior incursão pela pintura, analisada na dissertação O Jovem Di Cavalcanti: trajetória de um artista gráfico na imprensa carioca e na paulistana, 1914-1921, da socióloga Ana Paula C. Simioni, desvenda laços importantes para a compreensão dos elos entre produção cultural e vínculos sociais no Brasil da República Velha. 

      O Di das mulatas só ganharia notoriedade na década de 30. Nascido em 1897, numa família bem relacionada mas em difícil situação financeira, soube aproveitar o apoio de personalidades como José do Patrocínio (seu tio) e Olavo Bilac para ingressar no restrito mundo da imprensa e ali sobressair-se com suas ilustrações e caricaturas. 

      Di Cavalcanti cresceu no contexto da radical reconfiguração urbana do Rio de Janeiro, promovida pelo presidente Rodrigues Alves, através do prefeito Pereira Passos, em busca da proximidade com um estilo de vida europeu. As imagens produzidas no primeiro período de sua carreira repetem o estilo Art Noveau, dominante nas publicações importantes da época, e as quais as Gazetas Ilustradas brasileiras procuravam imitar. O mesmo requinte que se queria transferir 
com modos e etiqueta da Belle Epoque para a capital do país retratavam-se na revistas, para um público restrito, devido ao seu preço e ao repertório cultural que difundiam. 

      Sua mudança para São Paulo foi igualmente apadrinhada pelos bons contatos da família. Integrou-se rapidamente em São Paulo com Oswald de Andrade e Guilherme de Almeida, que favoreceram sua consolidação como ilustrador, produzindo para revistas como O Pirralho e para O Estado de São Paulo 
  
     A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), entretanto, ocasionou a ruptura do ideal europeu como modelo de civilização. Entre os círculos intelectuais brasileiros, a cisão se deu entre dois grupos: o de tendência nacionalista, que via na exaltação das três raças e do regionalismo o grande caminho de afirmação cultural, e outro de caráter universalista, que buscava compreender a especificidade nacional no contexto da sociedade moderna, industrial e urbanizada. Deste segundo grupo participava Di Cavalcanti, e a partir dele desenvolveu-se o pensamento que levou à Semana de Arte Moderna. 
  
     Ao empreender esta análise da primeira fase da inserção e da obra de Di Cavalcanti, Ana Paula contribui para o estudo do vínculo entre produção cultural e relações sociais e políticas. Acertadamente, ela mira num período considerado por muitos menor na arte deste pintor. Através da observação deste processo de formação, oferece a seu leitor uma leitura que ultrapassa a apreciação estética para alcançar a construção de um perfil de inserção sociocultural no período.

  
 
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 14 de Julho  de 1999