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Fotografia e Cidade:São Paulo na Década de 1930 

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         "Guerra sem guerra"
 São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial 1939-1945
     Há sessenta anos atrás tinha início a Segunda Guerra Mundial, que tornou-se uma marco na história do século.
    As proporções que a Guerra assumiu, seja em número de mortos ou de países envolvidos, os modelos políticos que através dela se enfrentavam, a vasta utilização da mídia para em sua veiculação , tornaram-na referência obrigatória a qualquer estudo sobre o período. 
        Do outro lado do Atlântico, em que medida a Guerra concretamente afetou o Brasil?
 
            As notícias sobre as batalhas, avanços e recuos dos exércitos na Europa estavam no cotidiano da imprensa brasileira, nos jornais, no rádio e no cinema. O assunto era um tema presente nas preocupações dos brasileiros, ainda que a guerra concreta estivesse tão distante. Isto justifica o título do texto de doutoramento do historiador Roney Cytrynowicz, "Guerra sem guerra: a mobilização e a constituição do front interno em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial 1939-1945".
            Ao analisar os jornais da época, os diários e as memórias, revistas e outras publicações, a evidência do tema é encampada como estratégia do Estado Novo, implantado por Getúlio Vargas em 1937, para a "mobilização e a constituição do front interno". O autor sugere a utilização da Guerra quase que como álibi para o alinhamento da sociedade brasileira ao Regime, em moldes disciplinadores e militarizados.
         A filosofia do "servir à pátria" adquiria legitimação à sombra do conflito, e materializava-se na formação de inúmeros grupos de escoteiros, entre os meninos, e na difusão do ideal da enfermeira, entre as meninas. O envolvimento das mulheres no "front interno" seguiria esta linha. Elas encontrariam seu lugar representando a "mãe-pátria" no atendimento aos feridos, enquanto os homens preparavam-se como soldados para a FEB.
 
   A mobilização popular passava pela crença de um possível ataque ao Brasil. Para tanto, houve  exercícios de como comportar-se num blecaute, em caso de bombardeio à cidade 
  As Campanhas da Guerra uniam pelo  sacrifício coletivo: a "Horta da Vitória", a "Campanha de Vitaminas para o Povo", a instituição do "Pão de Guerra". 
  O fantasma da escassez, ainda que ela não chegasse a ocorrer efetivamente, era amplamente utilizado nesta política de arregimentação, em especial junto às classes médias. Fala-se sempre de um "fortalecimento" da população, desconsiderando que, mesmo sem a situação de Guerra, os níveis de desnutrição e  mortalidade infantil eram altíssimos.
     O capítulo "A guerra do pão e a vitaminização da Nação" oferece dados de reflexão sobre a real necessidade da substituição do pão branco. A resistência em adotar o "pão escuro", duro, desconhecido (seria algo próximo do que é hoje o pão integral), daqueles que podiam "conseguir com o padeiro" o seu pão de sempre, mostra que havia algo mais que escassez envolvido no tema. A política do país em relação ao trigo, extremamente valorizado no mercado internacional naquele momento, era uma das variáveis inseridas na discussão. O processo de especulação sobre os gêneros alimentícios também é um argumento a ser levado em conta. 
 
   A utilização do gasogênio, substituindo os combustíveis derivados de petróleo, também constitui uma referência evidente na memória sobre a época. Assim como o" pão de guerra", segundo o autor, o alarde da escassez encobria toda uma relação de tensões e interesses vinculados à política de transporte na cidade. Curiosamente, no contexto de esforço de guerra, as revistas registravam a preocupação dos usuários com a elegância.
   
      A interferência do Regime no esquema de produção industrial, por outro lado, mostrou uma face mais dura, inserindo os trabalhadores na "Batalha da Produção". Em julho de 1944, houve a suspensão de direitos trabalhistas da CLT (instituídos em 1943): os empregadores podiam transferir operários de uma indústria para outra, desde que na mesma cidade, e o empregado não poderia sair de seu trabalho sem autorização oficial. Sem sindicatos livres no país durante o Estado Novo, as medidas eram drásticas e sem espaço para negociação. A Indústria Têxtil, por exemplo, teve lucros extraordinários com jornadas longas, salários baixos e demanda alta para a exportação.
        O diálogo que o autor constrói entre a documentação, a memória que se eterniza e a historiografia sobre o tema é em si um importante viés metodológico para os profissionais da área, num momento onde vemos estes termos usados com tão pouco critério.
          Um bom exemplo é a recuperação de todo um viés de deboche sobre a vida no período, que permaneceu especialmente no samba. Ele nos dá a medida da vivência ambígua de uma população estimulada ao sacrifício de Guerra, para uma guerra que se fazia pouco presente, e era mediada pelas orientações do presidente-ditador. Por outro lado, como afirma Cytrynowicz, o próprio Getúlio mantinha sua posição ambígua, pois "uma articulação política mais efetiva pró-Aliados significaria o fim do Regime". 
        O texto da dissertação, que trabalha vários outros aspectos, como a situação dos imigrantes naquele momento específico, a Batalha da Borracha, e faz um paralelo entre a memória de 32 na cidade e a memória de 39, está aprovado para co-edição na EDUSP, e deve ser publicado em breve. 

 

Autor:  Roney Cytrynowicz 
Instituição: Depto. História, FFLCH-USP
Orientação: Prof.Dr.Ulisses Telles Guariba Netto
Apoio: Cnpq 
 



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 30 de agosto de 1999