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e Cidade:
São Paulo
na Década de
1930

Di Cavalcanti,
uma história pré-mulatas

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retratos de
uma história
coberta pelo
mato.

"Guerra sem
guerra"
São Paulo
durante a
II Guerra
Mundial

O Rei no
Espelho:
A Monarquia Portuguesa e
a Colonização
da América
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 
 

O Caleidoscópio da Modernização: Discutindo a atuação de
Monteiro Lobato 


      Como foi se criando, na mentalidade da população, a identificação com as inovações trazidas pela modernização, no século XX?
     A leitura da obra,  das  cartas e da atuação  de Lobato facilitam compreender este processo de assimilação do novo.

     Monteiro Lobato é uma destas figuras que provoca amores e ódios. Possui legiões enormes de fãs devido a seus livros para crianças, e foi execrado pela crítica modernista, desde seu artigo "Paranóia ou Mistificação", sobre a exposição de Anita Malfatti. É reconhecido como um dos criadores da indústria editorial no Brasil, mas deu-se várias vezes mal como empresário. 
É aclamado como pioneiro na busca do petróleo no Brasil, e passou meses na prisão por este mesmo tema. 

     O trabalho O Caleidoscópio da Modernização, dissertação de mestrado de Lilian Starobinas, apresenta este personagem rompendo com os estereótipos antagônicos. Ao acompanhar a trajetória de vida e inserção cultural de Monteiro Lobato, discute sua  formação e atuação vendo-o como um sujeito complexo, interagindo com um contexto. 

     A maneira como Lobato apresenta o processo de modernização urbana e tecnológica é a questão central deste estudo. A oposição entre os anos em que viveu no Vale do Paraíba (Taubaté, no final do século XIX, em Areias, entre 1906 e 1911, e na Fazenda Buquira, até 1915), e seu fascínio por São Paulo, que conheceu durante os anos da Faculdade de Direito, mostram o forte apelo que a inovações técnicas e a vida cultural exerciam sobre ele. Em 20 anos, a cidade passou de vilarejo a grande centro, e esta veloz transformação é narrada por Lobato, em suas cartas e em seus artigos.

     Desde cedo, apaixonou-se pela fotografia, pelo cinema e depois pelo rádio. Em suas cartas, aos mais diversos destinatários, vibrava ao falar do progresso técnico, a começar pelo trem. Por outro lado, manteve posturas conservadoras em suas concepções de arte (daí a crítica à pintura moderna) e, mesmo em termos estilísticos, inovou pouco literariamente. 

       A fama veio com a publicação do artigo “Uma Velha Praga”, em 1916, em que Lobato lança a figura do Jeca Tatu, chamando o caboclo de “piolho da terra”. Desde então, ele percebeu o sucesso das  imagens polêmicas tirou muito proveito desta estratégia . O perfil do Jeca, como se acompanha no trabalho, foi se alterando, com a compreensão que “O Jeca não é assim. Ele está assim”. Daí seguiram-se as campanhas pela saúde pública e pela educação, entre outras. Associado ao desejo de fama e fortuna, há na obra, nas cartas e na atuação de Lobato um desejo de “consertar” o Brasil. 
     Convidado para editar a Revista do Brasil, teve estreito contato com a produção cultural do momento.Sua editora, fundada em 1918, foi à falência 1925. Em 1929 ele foi designado pelo presidente Washington Luís adido comercial em Nova York. Lobato encantou-se com os Estados Unidos, e, retornou, em 1931, disposto a lutar para “dar” ao Brasil os meios para tornar-se um país rico, e, portanto, saudável, letrado, enfim, moderno. Suas iniciativas na busca do ferro e do petróleo esbarravam na esfera política, seja do país, seja do contexto internacional, e em sua inabilidade empresarial. 
 
 
O sucesso da literatura infantil o projetou como autor, e garantiu o sustento da família. Sua facilidade em traduzir idéias complexas numa linguagem adequada às crianças gerou encomendas de perfil didático, como a Aritmética da Emília ou a Geografia de Dona Benta. A própria visão política de Lobato chega às crianças, em O Poço do Visconde, por exemplo.

              A figura do Caleidoscópio é usada, assim, para compor cenas que mesclam este percurso cheio de contradições, que permeou o processo de modernização no Brasil. A contribuição de Lobato, para além de sua atuação objetiva em campanhas e projetos, está na criação de uma mentalidade aberta à composição de fragmentos que permitem pensar um mundo composto por diversos caminhos, distante das ideologias excludentes que aceitam a validade de apenas um. 

 Seu texto é moderno especialmente quando ele perde o tom educativo ou panfletário, para construir um universo em que se suspendem as barreiras de tempo e espaço, e a simplicidade rural do Sítio do Pica-pau Amarelo alia-se aos personagens de cinema, às visitas à Grécia antiga, aos vôos pela Via Láctea, enfim, à criação voltada ao puro prazer da leitura.
     A dissertação O Caleidoscópio da Modernização: Discutindo a atuação de Monteiro Lobato apresenta reflexões metodológicas que podem ser úteis para pesquisadores que trabalham com história e literatura. Discorre também sobre a diferenciação de conceitos como moderno, modernismo, modernização e modernidade, muitas vezes usados sem critério.

         Este trabalho, apresentado em 1992, tem sua inclusão nesta coluna, que em geral aborda teses recentes, atendendo a pedidos de leitores da página.



 
 Autor: Lilian Starobinas
Instituição: Departamento de História -FFLCH-USP
Orientação: Prof.Dr. José Carlos Sebe Bom Meihy
Apoio: Cnpq


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28 de outubro de 1999.