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HBRASIL-L, um Fórum de Discussão da Pesquisa Histórica 
Preservação do Patrimônio Cultural 
  
Identidades Africanas no Brasil escravista

      Os escravos, os negros cativos, a escravidão: cada vez menos estes termos genéricos representam, no campo do estudo da história, as pessoas ou as instituições a que estão se referindo. As apresentações feitas na mesa redonda "Identidades Africanas no Brasil escravista" são exemplos de como as pesquisas mais recentes vêm revendo a abordagem da "escravidão africana" no Brasil.
 
      A introdução de Hebe Maria de Matos mostra a busca da observação da diversidade étnica, lingüistica e regional dos grupos chamados genericamente de "africanos" ou "negros". O conceito de "africano", afirmou, foi construído historicamente no século XIX, por autores como Nina Rodrigues, Silvio Romero e Arthur Ramos. A própria documentação sobre o tráfico e sobre a aquisição de escravos registrou as diferenças das nações, preocupações com a interação entre elas, preferências por determinada origem ou criação de dicionários de dialetos específicos. Compreender a história passa, portanto, por colocar novas questões:
 Quem foi trazido para o Brasil?
 Qual a estrutura da sua cultura de origem, e como ela o faz entender o que está se passando? 
 Como se monta a estrutura do tráfico nos portos de origem?
 Em que período e onde chegam? 
  Qual a organização da sociedade colonial que o acolhe?
 
     A fala de Mariza de Carvalho Soares traz um exemplo concreto da aplicação desta linha de pesquisa. O título "Os "mina" em Minas: tráfico Atlântico, redes de comércio e etnicidade" já traz em si três elementos de ordem distintas, indicando a criação de vínculos entre processos diferentes (o tráfico, o comércio interno e a etnicidade de um grupo), que geram uma novo contexto de inserção, de relações comerciais e oficiais. 
     Os "mina" são provenientes da Costa da Mina, e até o século XVIII sua presença no Brasil não era significativa, comparado com o número de pessoas trazidas de outras regiões da África. O crescimento da exploração desta rota do tráfico coincide com a descoberta de ouro na Minas Gerais, o que torna o mina cobiçado, por sua experiência prévia com o trabalho de mineração. Esta valorização preocupou o Conselho Ultramarino, já que as iniciativas de comércio com a Costa da Mina eram feitas sem a mediação da metrópole e com pagamento em ouro "desencaminhado" da tributação, e portanto burlavam o fisco português. Em 1703, o Conselho proibiu viagens de embarcações do Rio de Janeiro diretamente à Costa da Mina. Em 1715, a lei terminou sendo abolida, dada a expansão da atividade mineradora e o recorrente descumprimento da mesma. 
     Outras iniciativas foram tomadas para controlar tanto a entrada dos mina quanto impedir o extravio do ouro. Uma delas diz respeito ao alargamento da Estrada Geral da Serra dos Órgãos, ligando o Rio às Minas, para evitar a utilização do caminho da Serra do Facão, que partia de Parati. Este porto era visto como o de mais difícil controle para a cobrança de impostos sobre os escravos adquiridos e a taxação do ouro que por lá saía. Uma oficina de cunho também foi ali criada para "oficializar" o ouro.
    A apresentação de Silvia Hunold Lara "Os 'mina' em Minas: linguagem, domínio senhorial e etnicidade" trouxe à discussão outros documentos que reiteram a diversidade de etnias africanas no Brasil, como escrituras de compra e venda, prisões, alvarás de soltura, correspondências, entre outros. 
    Compreender a língua de cada grupo servia às necessidades dos senhores, feitores e membros da Igreja. Em 1731, produziu Antônio da Costa Peixoto alguns apontamentos, que dez anos depois seriam transformados no "Vocabulário Geral da Língua Mina". Se difundido este léxico, segundo o autor: "não se sucederiam tantos insultos, ruínas, estragos, roubos, mortes, e finalmente, caos atrozes como muitos miseráveis têm experimentado". Ele tratava de situações de violência, tensões por rebeliões, ordens e súplicas. 
     Silvia destaca a falta de interesse do português em saber sobre o outro, o que não evitava sua necessidade de lidar com ele. A dificuldade em penetrar no universo cultural dos mina fica ainda mais evidente quando se traduziam termos de caráter religioso. Diversas expressões que possuem a palavra "vodu", por exemplo, eram traduzidas como referentes à "missa".

     Todos estes estudos trazem em si uma renovação na historiografia brasileira, que aceitou sem muita crítica a composição do "povo brasileiro" como uma associação sem nuanças de "brancos, negros e índios". A discussão na maior parte das vezes centrava-se no caráter positivo ou negativo da mestiçagem. As sutilezas de cada origem destes grupos tratados indistintamente vêm sendo cada vez mais observadas, implicando novos ângulos de observação sobre as interações étnicas na composição de identidades no país.
 
 
XX - ANPUH 
Mesa Redonda
Identidades Africanas no Brasil escravista
Prof. Dr. Hebe Maria de Matos (UFF)
Prof. Dr. Mariza de Carvalho Soares (UFF)
"Os "mina" em Minas: tráfico Atlântico, redes de comércio e etnicidade" 
Prof. Dr. Silvia Hunold Lara (Unicamp) 
"Os 'mina' em Minas: linguagem, domínio senhorial e etnicidade"
 
 



  
  
 
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30 de Agosto  de 1999